Patrice Evra, antigo internacional francês, jogou em clubes como o AS Mónaco, Manchester United ou Juventus. Em entrevista ao jornal britânico 'Guardian', o jogador falou do seu ativismo e aprofundou o tema dos abusos sexuais de que foi vítima quando tinha apenas 13 anos.

Na semana passada, Evra, nascido no Senegal, discursou em Nova York na Assembleia Geral das Nações Unidas. O antigo jogador recebeu uma ovação de pé depois de ter falado do seu caso pessoal e daquilo que é preciso fazer para que tal não se repita. Para Evra, esse momento valeu mais do que todos os troféus conquistados na sua carreira futebolística.

"As pessoas ficaram chocadas quando leram a minha autobiografia e viram o que me tinha acontecido. Por isso decidi partilhar", diz Evra.

Este ano o antigo jogador visitou vários países africanos juntamente com a Organização Mundial de Saúde (OMS), onde falou em escolas e com outras vítimas de abusos.

"Comecei as redes sociais. Eu canto mal mas, cada vez que eu fazia mais um vídeo a cantar, as pessoas diziam que as tinha ajudado. Por isso pensei 'ok, mas eu consigo fazer mais do que isto', e aí comecei a trabalhar com a OMS. Conheci muitos sobreviventes. Só porque sofri de abusos sexuais quando tinha 13 anos não quer dizer que saiba tudo sobre o assunto; é um processo de constante aprendizagem", afirmou.

Juntando a sua experiência pessoal com a de outras pessoas, Evra percebeu melhor a maneira como África olha para a questão do amor e dos abusos sexuais.

"O abuso é 'tabu' em África, por mim tudo bem até porque gosto de tudo o que seja 'tabu'. Na cultura africana não é costume falar-se de amor; por exemplo eu nunca vi os meus pais beijarem-se. Eu fui a uma escola em África e o professor perguntou: 'Acham que é possível que uma pessoa negra seja abusada?'. Eles disseram que não...depois eu contei a minha história. Eles não conseguiam acreditar; para eles tal era impossível acontecer a um homem.", disse o gaulês.

O ex-jogador teve muita dificuldade em falar sobre o que lhe sucedera, nem foi capaz de confessar à polícia que estava a investigar o agressor.

"Estava a jogar no Mónaco, tinha 24 anos; um dia a polícia ligou-me e disse: 'Temos tido algumas queixas deste homem. Sabe de alguma coisa?'. Eu menti e disse que não; não estava pronto para lidar com aquilo", confessou.

Evra contou ainda como decidiu colocar este traumático episódio na sua autobiografia. O francês estava a ver um documentário sobre pedofilia com a sua namorada, e aí deixou as suas emoções vir ao de cima.

"Ela viu a minha cara, eu deixei as minhas emoções tomarem conta de mim e disse 'Sabes, tenho de pôr isto no livro'".

Segundo o francês, o pior de tudo surgiu quando Patrice Evra teve de contar à mãe o que tinha acontecido, tantos anos depois.

"A minha mãe ficou de rastos ao ver aquela criança de 13 anos, agora um homem, a contar-lhe na cara o que tinha acontecido; ela só dizia 'desculpa, desculpa'. Mas eu disse 'não mãe, eu estou bem'; e é por isso que eu me considero um sobrevivente e não uma vítima", realçou.

Na entrevista, Evra falou ainda da maneira como lidou com o sucedido e como conseguiu ultrapassar a situação.

"Há quem sinta vergonha, há quem sinta culpa; eu bloqueei tudo isso. Eu disse 'Mãe, eu nem me lembro da cara dele...não quero que sintam pena de mim'. Quando fui capitão do Manchester United ou da seleção francesa, as pessoas viam-me como alguém que não mostrava muito as suas emoções e diziam que tal era porque as ruas nos ensinavam a ser mais duros, mas de facto era devido a este trauma", revelou o antigo jogador.

Patrice Evra, agora com 41 anos, retirou-se do futebol profissional na temporada 2017/2018. Ao longo da sua carreira, o defesa conquistou uma Liga dos Campeões, um Campeonato do Mundo de Clubes, foi cinco vezes campeão inglês, e três campeão italiano.

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