Numa era em que o imediatismo e as redes sociais alertam a sociedade para alguns dos problemas mais escondidos e discretos da população, o FC Porto deu um passo em frente na inclusão social e deu destaque a uma condição desvalorizada por muitos e pouco debatida: o daltonismo ou seja, a incapacidade ou dificuldade em distinguir cores.

No passado mês de janeiro, os dragões foram distinguidos com o prémio de Responsabilidade Social da Fundação do Futebol da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) pelo uso do código de cores para daltónicos ColorADD, no Estádio do Dragão.

O clube portista tornou o seu estádio no primeiro a nível mundial a utilizar este sistema e a ajudar assim a população que sofre com esta condição num altura em que todos os passos dados no caminho da inclusão devem ser valorizados.

"A sociedade esqueceu-se que existem pessoas que não vêm as cores, mas os daltónicos também não reclamaram", defende Miguel Neiva, criador do ColorADD

O daltonismo

Também conhecido como discromatopsia ou discromopsia, o daltonismo é uma doença recessiva, que pode ou não ser hereditária, e que se caracteriza pela dificuldade ou mesmo incapacidade de distinguir algumas ou todas as cores.

Além da genética, o daltonismo pode ainda ser causado por lesões neurológicas ou nos olhos e tem diferentes tipos: acromático (o indivíduo vê apenas a preto e branco), dricromático (o indivíduo não consegue identificar uma cor específica) e tricomático (o indivíduo apresenta uma ligeira dificuldade em distinguir as cores).

Em Portugal estima-se que 500 mil homens sofram de daltonismo, enquanto 27 mil mulheres vivem com esta condição no nosso país. A nível mundial, 10% dos homens é daltónico, enquanto apenas 0,5% das mulheres sofrem desta doença, o que se traduz em 350 milhões de pessoas afetadas pelo daltonismo.

Tal como acontece com outras condições médicas, também o daltonismo esteve tapado pela vergonha imposta pela sociedade e pouco se falava do tema há 20 anos, quando Miguel Neiva decidiu lançar o ColorADD.

"Eu sou designer e o projeto começou com a minha tese de mestrado em 2000. A minha vontade era que o design fosse mais do que desenhar bonitos objetos e sim que conseguisse fazer o mundo melhor", começou por explicar ao SAPO Desporto.

O desejo de "trabalhar em algo que se focasse na inclusão" levou Miguel Neiva à perceção de que não exista no mundo nada que ajudasse os portadores de daltonismo e foi aí que "o desafio se tornou maior porque implicava criar algo que a sociedade esqueceu".

"A sociedade esqueceu-se que existem pessoas que não vêm as cores, mas os daltónicos também não reclamaram porque não queriam assumir a sua condição. Ou seja, tudo isto está relacionado com a vertente social e com a inclusão, que hoje tanto se fala", apontou o criador do ColorADD.

A criação de um sistema inclusivo

Escolhido o tema da tese de mestrado e decidido o passo que acabaria por impactar a vida de milhares de pessoas, Miguel Neiva procurou saber mais sobre a condição que o ajudou a tornar o mundo num sítio melhor.

"Numa primeira fase trabalhei com médicos de oftalmologia para entender o que era o daltonismo, porque não havia informação e era visto como um juízo de valor depreciativo. Também trabalhei com daltónicos e foi muito importante perceber que todos vivem com as mesmas limitações, com os mesmos constrangimentos e com as mesmas vergonhas, apesar das diferentes nacionalidades", explica o designer.

Em 2008 o projeto foi dado como concluído e, dois anos depois, o ColorADD saiu à rua. "Em 2010, começaram as primeiras implementações do código, que é uma linguagem universal e capaz de ser entendida em qualquer parte do mundo. Além disso é transversal em todos os setores em que a cor tem uma relevância grande do ponto de vista da comunicação. Desde essa altura que temos implementado essa linguagem um pouco por todo o mundo, incluindo no desporto, onde a cor tem uma importância enorme e que é uma indústria que move massas. O objetivo é chegar a todos através de todos", confessa Miguel Neiva.

Para criar um sistema que chegasse a toda a população, o designer procurou simplificar a tarefa de forma a que esta fosse percetível para pessoas de todas as culturas, formações e conhecimento. E assim fez.

"Na escola aprendemos que existem três cores primárias - azul, vermelho e amarelo -, branco e preto. Como estas são as bases de construção de todas as cores, eu atribuí um símbolo gráfico a cada uma dessas cinco cores, que fosse fácil de integrar no vocabulário visual de cada um e fácil de reproduzir em diferentes dimensões", começa por explicar.

O código ColorADD criado Miguel Neiva
O código ColorADD criado Miguel Neiva créditos: LPFP

No entanto, para Miguel Neiva, era também importante "que fosse fácil ligar os símbolos entre eles, da mesma forma que nós aprendemos que se misturarmos o azul e o amarelo vamos ter verde, neste código, se misturarmos o símbolo do azul com o símbolo do amarelo temos o símbolo do verde. Com este princípio o daltónico consegue identificar todas as cores, lembrando que, tal como nos guaches, o branco e o preto fazem os tons claros e escuros."

A vida sem cor

Não é preciso puxar muito pela cabeça para concluir que a cor tem um impacto enorme na vida de quem a vê, como não é difícil concluir que pode ter um impacto ainda maior na vida de quem não a vê.

Tomando a cor, ou a perceção da mesma, como garantida, esta nem sequer assume uma relevância razoável nas nossas vidas. Isto é, ao olhar para um semáforo, ninguém pensa 'ainda bem que vejo as cores'. Da mesma forma que poucos se lembram de quem não as vê, ou pelo menos não as distingue.

A questão dos semáforos pode ser resolvida pela ordem em que as cores surgem, mas nem todas as dificuldades são ultrapassadas com a mesma facilidade e algumas podem mesmo condicionar a vida de quem lida com elas. Seria difícil para um daltónico ser pintor, da mesma forma que é complicado para estas pessoas orientarem-se nos transportes ou até em hospitais.

Além disso, moda é também uma indústria que se pode tornar difícil de seguir e Petit, treinador do Belenenses SAD, é exemplo disso. Em declarações ao Canal 11, o antigo jogador revelou que sofre com esta condição e explicou como descobriu.

Petit admitiu que começou a desconfiar que podia ser daltónico aos 19 anos quando iniciou o namoro com a atual mulher que questionava a escolha de cor "inacreditável" que o jogador fazia nas suas roupas.

"Não contava a ninguém. Mas quando fui para a Alemanha [para o Colónia], chegaram a pensar que eu era um 'flop' por causa das minhas reações nos treinos de posse. Dividiam o grupo em três com coletes de cores parecidas e eu não conseguia saber qual era o meu", lembrou o atual técnico. Mais de dez anos depois, já há solução para este problema.

A chegada ao Dragão

Recentemente, este sistema chegou ao FC Porto, nomeadamente ao Estádio do Dragão. "Tudo começou pela organização do parque de estacionamento e pelos coletes, mas on going vai ser implementado em muitos outros âmbitos, como na formação e em todo o zoneamento do próprio estádio, sempre que a cor for importante como fator de identificação e orientação", esclarece Miguel Neiva.

Como o criador do ColorADD revelou ao SAPO Desporto, a parceria com o FC Porto surgiu "no seguimento de contactos e de aproximações que foram feitas" com base na experiência que a equipa tem na indústria do desporto.

Para essa experiência contribuiu o facto de o Museu Nacional do Desporto, em Lisboa, já utilizar o código de cores há vários anos, assim como uma ação levada a cabo pela Liga de Clubes em 2017 na Taça da Liga.

Na altura, no Estádio do Algarve, o sistema de identificação de cores para daltónicos foi implementado na bilhética, sinalética e outros materiais gráficos da fase final da prova, mas também nos uniformes dos elementos do ‘staff’ da LPFP e dos participantes em várias atividades paralelas da 'final four', como o Jogo das Lendas, Torneio Inter-Escolas e Corrida do Adepto.

Segundo Miguel Neiva, o trabalho realizado na Taça da Liga ajudou na criação de "um know how que nos permitiu apresentar uma solução ao FC Porto que, com toda a disponibilidade, acreditou na ideia de se tornar pioneiro e de desenvolver este trabalho que tem sido desmultiplicado em vários suportes, não só no futebol como também nas outras atividades do clube, passando até pela pedagogia e sensibilização para a aceitação da diferença e pela divulgação da ideia de que uma pessoa daltónica não é inferior a outra, mas que tem uma maneira diferente de ver."

Portista assumido, Miguel Neiva admite que "é um orgulho enorme" ver o seu trabalho reconhecido e utilizado pelo clube do coração. "É uma sensação ótima por ver um trabalho que eu pensei não para mim, mas para outras pessoas. Estou 100% dedicado a este trabalho, o que prova que nós não temos de nos preocupar só com os nossos problemas, podemos preocupar-nos também com os outros porque um dia alguém há-de ajudar-nos a resolver os nossos", salienta.

"Ver a recetividade de entidades e organizações é um grande orgulho, em todas as indústrias, mas eu sou um apaixonado pelo desporto e por futebol e não posso negar isso", acrescenta Miguel Neiva, antes de frisar que "o reconhecimento de entidades da dimensão do FC Porto a valorizarem o meu trabalho, que nasceu de pessoas e para pessoas, é extremamente gratificante. Além disso é muito motivador e faz-nos acreditar que estamos a percorrer o caminho certo."

No entanto, o designer não guarda todo o orgulho para si e confessa que "é muito gratificante ver as entidades que utilizam o nosso código serem reconhecidas, como aconteceu com o FC Porto, ao qual a Liga de Clubes atribuiu o prémio da Responsabilidade Social."

"Esta é também uma maneira de os nossos parceiros se sentirem reconhecidos por privilegiarem aquilo que é a informação ao serviço da inclusão. Por isso, todos ganham, sendo que no meio disto tudo quem mais ganha é a sociedade, que se torna mais justa e mais inclusiva. Naturalmente todas estas são boas práticas que eu acredito que serão replicadas por outros porque todos nós temos a nossa responsabilidade positiva em tornar o mundo melhor", diz Miguel Neiva.

Miguel Neiva e Teresa Santos, do FC Porto, com o prémio
Miguel Neiva e Teresa Santos, Responsável pela área de Sustentabilidade do FC Porto, com o prémio créditos: LPFP

Por seu lado, o FC Porto ressalta que a implementação deste código se enquadra na estratégia social do clube , que torna "as suas infraestruturas cada vez mais inclusivas, de uma forma não discriminatória", além de permitir "que os adeptos se sintam mais autónomos e independentes."

"O FC Porto pretende ser um veículo para a inclusão e, por isso, é nosso objetivo contínuo chamar a atenção para este tema", esclareceu ao SAPO Desporto Teresa Santos, responsável pela área de Sustentabilidade dos dragões, lembrando que a "implantação do ColorAdd é apenas o mais recente exemplo", que se vem juntar a outras iniciativas.

"O Museu já faz visitas guiadas em braille e orientadas para surdos; nos jogos no Estádio do Dragão já é possível encomendar comida através da aplicação Seat Delivery e a mesma ser entregue no lugar onde a pessoa está sentada; disponibilizámos um elevador no exterior como alternativa à longa escadaria que dá acesso direto à praça e, além disso, oferecemos bolsas a alunos carenciados nas modalidades e nas escolas Dragon Force, promovemos campanhas a favor da igualdade, como foi o caso da ação Many Faces, em parceria com os James," aponta.

Teresa Santos destaca ainda que "lutar pela inclusão é uma preocupação diária no FC Porto" e que em função dessa mesma luta o clube promove "inúmeras ações de consciencialização."

A distinção

A implementação deste sistema valeu ao FC Porto o prémio de Responsabilidade Social atribuído pela Liga de Clubes e pela Fundação do Futebol por ser "uma iniciativa impar, que culmina num conjunto de ações que a Sociedade Desportiva tem realizado com o claro objetivo de tornar as suas instalações mais inclusivas, acessíveis e com uma forte preocupação ambiental permanente", como explicou ao SAPO Desporto Luís Estrela, coordenador da Fundação.

"Os clubes têm feito um trabalho exemplar, no campo da Responsabilidade Social, incansável, incessante e cada vez com maior impacto positivo", salienta Luís Estrela, coordenador da Fundação do Futebol

"O futebol tem um impacto avassalador no público, independente do seu estrato social, é transversal, logo tem uma capacidade de chegar a todos de forma direta e impactante. É com este principio que o futebol deve aproveitar toda a sua notoriedade para jogar um futebol positivo, agregador, inclusivo, de fair-play e respeito, de solidariedade, cooperação e proteção de valores e direitos humanos", acrescenta ainda.

Em nome da Fundação do Futebol, Luís Estrela lembra que "é fundamental a afirmação de um futebol agregador, para todos e em segurança, fraterno, solidário, valorizando a vida e o “contágio” benéfico do futebol na sociedade" e que, nesse sentido, "os clubes, quer da Liga NOS, quer da Liga Portugal SABSEG, têm feito um trabalho exemplar, no campo da Responsabilidade Social, incansável, incessante e cada vez com maior impacto positivo nas suas comunidades e no seu público."

Luís Estrela frisa que "o futebol prolonga-se muito para além dos 90 minutos, alicerçando toda a sua agregação enquanto pólo aglutinador e influenciador de massas. Os clubes junto dos seus adeptos, parceiros e comunidades locais desempenham um papel extraordinariamente relevante, do ponto de vista social, na proteção de valores, nas boas práticas educacionais e ambientais".

Já Teresa Santos destaca que "o FC Porto, sendo uma marca global que representa também a sua região, assumiu desde sempre na sua estratégia uma responsabilidade de consciencialização para temas como a inclusão, o respeito e a igualdade. Não pensamos em implementar boas práticas para receber prémios ou distinções, mas é óbvio que ficamos contentes e até orgulhosos com reconhecimentos como o da Liga, principalmente por podermos ser um exemplo de inclusão."

Além do FC Porto, também a Liga de Clubes tem realizado um trabalho árduo na luta pela inclusão social e prova disso mesmo são as várias ações levadas a cabo pelo organismo e que Luís Estrela salienta como os livros do Mundo do Ligas (um livro de colorir acompanhado por lápis com código de cor ColorAdd para crianças daltónicas), neste tema em concreto.

Mas o trabalho não fica por aqui e o organismo que tutela o futebol nacional conta ainda com parcerias com "o IPO de Lisboa, a Fundação do Gil, a Make a Wish, a APPACDM, a Rede de Emergência Alimentar, através do Banco Alimentar, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, entre outras entidades", que "permite que o futebol através dos clubes, dos seus atletas ou de embaixadores da Liga Portugal, tenha um papel ativo, de integração e solidariedade, permitindo que o futebol positivo, livre e saudável chegue de forma efetiva a todos, desde de crianças, jovens e seniores, quer se encontrem numa situação de fragilidade social, detenham alguma incapacidade física, alguma doença grave ou degenerativa ou se encontrem numa situação de isolamento e solidão."

Para continuar a luta a favor de um futebol inclusivo, "a Fundação do Futebol juntamente com a Liga Portugal continuam a trabalhar em conjunto e com as Sociedades Desportivas a melhoria das acessibilidades para pessoas com incapacidade físicas e motoras, com o claro objetivo de dar as mesmas condições a todos para o mesmo espetáculo".

O ColorADD além do desporto

O sistema de Miguel Neiva serve várias áreas e conta já com mais de 300 parcerias. Uma das áreas em que o ColorADD é utilizado atualmente é nos transportes, nomeadamente no Metro do Porto e na Carris.

Além disso, o código já se estende a outros países e a áreas como a saúde. "A cor também tem uma relevância grande ao nível da saúde. seja na orientação dos hospitais ou na triagem. A semana passada foi anunciada a primeira farmacêutica do mundo a integrar esta linguagem gráfica em embalagens de medicamentos porque de facto a cor é o que define o princípio ativo e de dosagem do medicamento. Todos estes processos têm de passar por reguladores, ou seja, o Infarmed teve de validar e reconhecer este código", conta o designer.

O ColorADD já chegou também a empresas de vestuário como a Zippy, a companhias de seguros e até às bandeiras das praias. A isto junta-se o facto de o código também já ser ensinado em manuais escolares e de também estar presente no material propriamente dito como é o caso dos lápis de cor.

Por fim, Miguel Neiva revelou ainda que "a Mattel, que é a maior multinacional de jogos do mundo, criou um UNO com o ColorADD, ou seja, todo o mundo pode agora jogar UNO sem a discriminação das pessoas que não vêm aquelas cartas. A maior multinacional adotou uma linguagem criada em Portugal e levou-a para todo o mundo."

E é assim que, um projeto iniciado há mais de 20 anos, promete dar um pontapé na discriminação ao mesmo tempo que abraça a inclusão daqueles que não vêm as cores, mas estão dispostos a abrir os olhos para o mundo.

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