A “conivência” de colegas de profissão e da sociedade portuguesa para com insultos racistas no futebol e o papel dos ‘media’ têm de mudar para evitar mais casos, disse hoje à agência Lusa a psicóloga Ana Bispo Ramires.

Questionada pela Lusa sobre o que aconteceu no domingo no estádio do Vitória de Guimarães, em que o maliano Moussa Marega (FC Porto) deixou o relvado após ser alvo de insultos racistas dos adeptos contrários, a especialista em psicologia do desporto vê no “isolamento” do atleta na saída de campo como um sinal de “conivência”, pela não atuação de outros perante um comportamento de agressividade.

“Ao sair só, acaba por se remeter o atleta para alguma solidão, para o isolamento, no que devia ser uma decisão de ‘tribo’, da equipa, dos colegas de profissão, e de todos nós na sociedade portuguesa”, atirou.

Para a especialista, o problema da violência no desporto “é de todos, mas também dos atletas”, que têm “voz ativa e responsabilidade acrescida” perante a sociedade. “Neste enquadramento provavelmente deviam ter saído todos de campo”, comentou.

A situação leva Bispo Ramires a esperar que o ‘caso’ seja “explorado na imprensa e redes sociais até à exaustão, mas que saiam poucas medidas que de forma séria sejam implementadas e controladas no terreno para erradicar de vez este e outros tipos de violência no desporto”.

Para a psicóloga, o papel dos meios de comunicação social a “dar visibilidade a fenómenos destes”, em vez de situações positivas, acabam por “moldar muito mais o negativo do que o positivo”.

“Por alguma pessoa, para fazer frente às pessoas que invadiam nuas os campos em Inglaterra, deixaram de os filmar, para lhe retirar o protagonismo”, comentou.

Bispo Ramires destaca ainda a problemática da violência no desporto português, como com a situação do ataque à academia do Sporting em Alcochete, como um fenómeno que “tem de ser combatido, mas tem de o ser em todas as suas dimensões”.

“Porque é que se filmam as pessoas que atiram tochas? (...) De há uns anos a esta parte, os ‘media’ já não filmam as pessoas que morreram em cenários de catástrofe, por uma questão de consciência social e porque as imagens traumatizam”, acrescentou.

Neste contexto, os ‘media’ têm um papel principal na “promoção de comportamentos adaptativos” positivos e devem ser usados para tal, mesmo que isso possa render “menos audiência, menos ‘likes’ [nas redes sociais]e menos vendas”, comentou.

“Todos temos de decidir, todos os que se querem sentar a esta mesa, se queremos frutos a curto prazo e o protagonismo, ou frutos a longo prazo e resolver um problema”, sentenciou.

Na opinião da psicóloga, a violência no desporto “vai durar algumas gerações a erradicar”, com medidas que vão do espectro punitivo à educação, para contrariar algo “que está instalado de forma disfuncional no ser humano”, que usa “o comportamento agressivo como fim e não um meio” para sobreviver, em algo que começa a ser condicionado desde o nascimento.

O avançado do FC Porto recusou-se a permanecer em jogo e abandonou o campo, ao minuto 71, após ter sido alvo de insultos racistas por parte dos adeptos do clube vimaranense, numa altura em que os ‘dragões’ venciam por 2-1 - anotou o segundo golo -, resultado com que terminou o encontro da 21.ª jornada da liga, no domingo.

O Ministério Público instaurou um inquérito na sequência deste incidente, que já mereceu a condenação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do primeiro-ministro, António Costa, entre outros.

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