A equipa de hóquei em patins do Benfica foi fustigada por casos positivos do novo coronavírus em novembro e aceitar o impacto da doença foi para o argentino Carlos Nicolía o fator decisivo na conquista da Taça 1947.

“A principal razão por termos chegado muito bem foi aceitar as nossas limitações. Sabíamos que éramos a única equipa que chegava com 10 dias sem treinos, com 10 dias de jogadores que estiveram muito mal por causa do vírus. Quando tu aceitas as limitações e jogas com elas a teu favor, é positivo. A chave foi aceitar que estivemos 15 dias em casa sem treinar e que para ganhar tínhamos de ‘equilibrar a gasolina’”, afirmou o hoquista ‘encarnado’.

Em entrevista à Lusa, Carlos Nicolía, de 34 anos, sublinhou o valor do título conquistado no último domingo, não apenas porque “ganhar é importante, mas sobretudo por ser a primeira edição” de uma prova que evoca o ano em que Portugal iniciou a construção internacional do seu palmarés na modalidade e também pela afirmação da equipa num país que, segundo o internacional argentino, conta com “as melhores equipas e os melhores jogadores do Mundo”.

Para o experiente hoquista, foi “uma surpresa” a chegada do SARS-CoV-2 ao plantel, face ao protocolo sanitário em vigor no clube da Luz, reconhecendo, porém, que o seu caso acabou por não causar muita preocupação. “Tive covid-19 e só perdi o olfato. Quando começou a surgir um caso e logo outro, começámos a sentir-nos mal, até por uma questão psicológica. Ao terceiro dia perdi o olfato e foi só isso, por sorte foi tranquilo”, contou.

Na final da Taça 1947, o Sporting causou grandes dificuldades ao Benfica, que esteve o jogo quase todo em desvantagem e só alcançou o empate (3-3) nos últimos cinco minutos, superiorizando-se depois nas grandes penalidades (3-2). No momento da decisão, coube a Carlos Nicolía a responsabilidade e o argentino não tremeu.

“Em 30 segundos pode mudar tudo no hóquei e há momentos no jogo que fazem a diferença. Treino cada dia para isso, muitas vezes é mais importante treinar-se para um detalhe no jogo”, atirou, sem querer assumir-se como um dos líderes da equipa no balneário: “Sei que sou um jogador com muito caráter e que gosta de dizer tudo, porque sou sincero. Não sei se isso é ser um líder, mas tento sempre ter o meu limite muito alto”.

Virada a página da Taça 1947, os ‘encarnados’ terão de regressar ao campeonato, onde têm tido menos momentos para festejar. O conjunto treinado por Alejandro Dominguez ocupa apenas o quinto lugar, a 10 pontos do líder Sporting, mas o hoquista argentino, que está no clube desde 2014/15, reiterou a confiança na capacidade de reação do plantel.

“Sabemos que temos possibilidades de recuperar e que há um ‘play-off’ pela frente. Quem chega mentalmente melhor é quem ganha, não é pelos pontos da classificação durante o ano. Se lá chegarmos, temos muitas possibilidades de ganhar. Se estivermos bem e aproveitarmos este estímulo da Taça, poderemos estar lá em cima no fim”, sublinhou.

Um desfecho assim já seria muito diferente da última época, cancelada devido à pandemia de covid-19. O hóquei em patins acabou por regressar aos rinques, mas sem o público, de quem Nicolía disse já sentir “saudades” e que deixou o desporto “frio e triste”.

“Somos profissionais, mas muitas vezes jogamos pelas pessoas que vêm a um pavilhão a uma quarta-feira às nove da noite para ver um jogo contra uma equipa que não é de ‘top’. Sabemos o esforço que fazem e não ter a possibilidade hoje de conquistar uma Taça e partilhar com eles não é bonito”, confessou.

Da evocação de um passado recente aos desejos para o futuro foi um curto passo para o internacional argentino, que não esqueceu a família no seu país de origem.

“Tenho a minha mãe na Argentina com 73 anos e desde março que não sai à rua. Isso afeta não só a saúde, mas também a cabeça de uma pessoa. Pelas pessoas que hoje não têm a liberdade de fazer uma coisa mínima, como ir caminhar na rua, porque têm medo de se contagiar e vir a ter problemas… quando te tiram a liberdade, é difícil de superar. Que 2021 chegue com saúde para todos nós e com mais tranquilidade”, concluiu.

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