A fábrica da ‘Bilhares Carrinho’, na Anadia, região de Aveiro, é o pano de fundo para o início desta reportagem. O cheiro a madeira e a verniz, o barulho das máquinas e o sorriso a orelha a orelha da D. Maria, uma das funcionárias da fábrica, são o melhor pontapé de saída para descobrir as origens do futebol de mesa.

Apanhámos a D. Maria a meio de uma tarefa delicada e que exige arte e engenho. A pintura dos bonecos de chumbo, que são parte da tradição dos matraquilhos portugueses. “Sim gosto, por acaso gosto. É preciso é ter paciência e gosto. Não é para toda a gente”, conta-nos enquanto pinta com minúcia um boneco de azul e branco, do FC Porto.

Não se consegue perceber com exatidão qual é a origem dos matraquilhos. Terá nascido nos finais do século XIX, acompanhando também o surgimento do futebol moderno. Mas foi o inglês Harold Searles, em 1921, que registou a primeira patente, em 1921. Lá fora, apelidam o futebol de mesa, de “Fussball”. Por cá, apenas matraquilhos, ou ‘matrecos’. “Chama-se assim, talvez devido ao matraquear dos bonecos e do barulho”, explica António Carrinho, diretor da maior fábrica de matraquilhos, a nível nacional.

Nascida em 1962, a Bilhares Carrinho constrói matraquilhos à portuguesa e de forma tradicional: Estrutura em madeira, varões de aço mais pesados e bonecos de chumbo, mas com adaptação da estrutura de produção às máquinas. “O meu pai começou por criar algo artesanal com a minha mãe, até chegar a uma estrutura como temos hoje. Fomos os primeiros na altura, na região”, lembra.

Mesmo para quem fabrica matraquilhos e bilhares, ainda há espaço para duelos acesos entre os funcionários, nos tempos mortos ou durante a hora de almoço.

"É frequente à hora de almoço, quando podem, fazerem uma partidita. Mas só à hora de almoço obviamente”, diz com um sorriso António Carrinho.

Em Portugal produzem-se anualmente 2.000 mesas de matraquilhos

Com o declínio da cultura do café, os tempos passados entre imperiais, tremoços e umas partidas de matraquilhos foram trocados pelo comando da consola ou pelo esgravatar no telemóvel. Hoje em dia, são poucos os que juntam trocos, em geral 50 cêntimos, para bater umas bolas. Já para não falar em comprar mesas, num mercado “que é cíclico, e em anos em que não há tanta procura”.

António Carrinho, filho do fundador da Bilhares Carrinho
@SAPO Desporto

“Os jovens gostam de experimentar, mas dispersam-se por outras ofertas”, diz António Carrinho. A opinião é partilhada por Ricardo Vieira, vice-presidente da federação portuguesa de matraquilhos.
“Notamos que as novas tecnologias afastam dos jogos mais tradicionais. É mais fácil ficar em casa e jogar virtual do que se deslocar a um clube e fazer a prática”.

O mercado da saudade é muitas vezes o motor de uma indústria. É o sentimento que percorre a alma de muitos emigrantes, que procuram recuperar os brinquedos de infância. Matreco que se preze, é com certeza de madeira e chumbo.

“Onde há emigrantes, há matrecos portugueses e as pessoas não encontram lá [nos países onde vivem], os matrecos da infância. Em Portugal só temos um tipo, noutros países há vários e são sempre diferentes. As pessoas pedem matraquilhos para os Estados Unidos e para a Austrália. Vende-se muito a particulares”, explica António Carrinho.

D. Maria dá cor aos matraquilhos
D. Maria dá cor aos matraquilhos créditos: @SAPO Desporto

O ‘matraquear’, que resulta do choque entre o boneco de chumbo e as bolas pesadas faz parte do imaginário dos cafés por Portugal fora.

“Antigamente utilizava-se muito a madeira. Quem gosta de fintas, gosta de madeiras, e depois há a procura por bolas pesadas. Chegou-se a fazer bolas de marfim. Em Portugal, gostam de bolas pesadas e jogo forte para se ouvir o barulho”.

Com um preço que pode oscilar entre os 300 e os muitos milhares de euros, o que é que distingue uma mesa mais cara de uma mais barata? Ao contrário do que possa parecer, não é a mão-de-obra, mas sim os materiais.

Existem mesas de matraquilhos que custam para cima de 6.000 euros. Mas arranjam-se mesas a partir dos 300 euros.

“O que encarece a mesa é o material utilizado, os tradicionais já são feitos à mão. O que faz a diferença é o pormenor e os acabamentos. Podemos pensar em madeiras maciças mais nobres e caras, comoteca, nogueira, ou pau-ferro”, segundo Pedro Seabra, diretor de produção da fábrica.

A habilidade nos pés no país de Eusébio e Cristiano Ronaldo também se traduziu na forma de moldar o boneco dos matraquilhos.

“Têm 'pezinho' e dá para fazer umas fintas. O boneco internacional é em plástico, o pé em cunha, o que dificulta a forma de dominar a bola.”, diz Ricardo Vieira.

Pormenor de um boneco de chumbo
Pormenor de um boneco de chumbo créditos: @sapo desporto

É precisamente esta dificuldade com que se debatem os craques dos ‘matrecos’ portugueses: a adaptação às mesas de futebol de mesa internacionais.

Criada em 2007, a federação portuguesa de matraquilhos e futebol de mesa conta neste momento, com 400 atletas federados, entre juniores, seniores, veteranos, femininos e atletas com deficiência motora (cadeira de rodas).

Mesas de matraquilhos na Bilhares Carrinho
Mesas de matraquilhos na Bilhares Carrinho créditos: @sapo desporto

Com a mesa de madeira e chumbo a ser a rainha das competições nacionais, a nível internacional, como nos campeonatos do mundo, a conversa é outra. A mesa portuguesa não está homologada. Entre as cinco mesas reconhecidas internacionalmente, Portugal acabou por optar pela mesa ‘Roberto Sport’. “Por ser a mais barata” entre as cinco, diz-nos André Mendes, campeão nacional de futebol de mesa.

“Em Portugal, não gostamos da mesa internacional”, conta-nos Inês Cascais, jogadora com várias presenças em campeonatos do mundo e que só treina na mesa ‘Roberto’ um mês antes das competições. “Não gosto de jogar nessa mesa, é diferente”. Homologar a mesa portuguesa para as competições também não parece ser uma realidade plausível: "Não me parece. Não cumpre os padrões. As mesas internacionais são todas semelhantes. Na questão dos tampos, dos bonecos, tamanhos das balizas", acrescenta André Mendes.

André Mendes – O ás dos matrecos

Com várias presenças em campeonatos do mundo e com o 9º lugar como melhor classificação a nível individual, não é através da técnica de pulso que André Mendes ganha a vida. Técnico de tráfego aéreo numa empresa de aviação privada, causa espanto e desperta curiosidade nos colegas quando veste a capa de ‘super herói’ dos matraquilhos. É que o futebol de mesa não é para qualquer ‘matreco’.

"Há sempre uma admiração e um espanto inicial quando lhes digo que sou campeão nacional”

"Há sempre uma admiração e um espanto inicial quando lhes digo que sou campeão nacional. Dizem-me: - ‘mostra aí o vídeo. Nem sabia que havia federação’. A reação mais normal é essa”.
O gosto por matraquilhos veio através do pai. Da mesa pequenina que tinha em casa, passou para as mesas dos cafés. Sem centímetros para jogar numa mesa ‘à séria’ utilizava as grades de cervejas para poder ver, olhos nos olhos os adversários.

"Tínhamos uma mesa de plástico e foi aí que tudo começou. Passei da mesa pequenina para os cafés, para as tascas. Eu colocava-me em cima de grades de cervejas que utilizava para ter altura para jogar nas mesas grandes".

O gosto e a vontade por aprender e evoluir teve inicialmente apenas uma motivação: “impressionar o meu pai”. Depois veio tudo atrás do gosto e do aperfeiçoamento, acrescenta.

André Mendes e Inês Cascais festejam triunfo
André Mendes e Inês Cascais festejam triunfo

Da brincadeira para as competições a ‘sério’, não foi um ‘tirinho’. "Demorou muito tempo. Só tive conhecimento que existia uma federação de matraquilhos em 2008. E foi aí que juntámos o pessoal a participar nas provas. Passei muito tempo a jogar em cafés".

Com jeito para os dribles, foi a norte que o jogador de Corroios, no Seixal, percebeu que tinha “uma espécie de dom”.

“Nós jogávamos com bolas de madeira [Em Lisboa] e no norte jogavam com bolas brancas que escorregavam muito. Fui logo vencer todos os campeonatos, jogando com bolas deles e aí pensei: - 'Eh pá, se calhar há aqui qualquer coisa'".

Matraquilhos também são para elas

Café: Local de culto de convívio e território de caça para os ‘pros’ colocarem à prova as suas habilidades. Inês Cascais descobriu o gosto pelo jogo num desses espaços e recorda como conheceu André Mendes, seu parceiro nos campeonatos nacionais na vertente de mistos.

"Comecei em 2010, com o meu namorado. Nas nossas saídas à noite jogávamos todas as noites. Um dia apareceram lá dois irmãos. Um deles era campeão nacional [André Mendes] e foram eles que nos incutiram o gosto. Comecei a gostar, a jogar melhor e foi assim.

Imune às ‘bocas dos homens’ que escarneciam mal viam uma mulher nas mesas, confessa que lhe dá um gosto particular “demonstrar que joga tão bem como eles. “Há sempre aqueles 'espertos'...há sempre esse preconceito. [Metem-se com os amigos] Estás a levar na boca de uma mulher…mas eles mandam as bocas à mesma. E dizerem que eu vou perder antes do jogo? Sim, e dá-me ainda mais gozo [vencer] quando é assim".

Inês Cascais em ação numa competição internacional
Inês Cascais em ação numa competição internacional créditos: Fotografia cedida por Inês Cascais

Com poucas mulheres contra quem jogar, Inês diz mesmo que prefere jogar com homens. E explica porquê: Como guarda-redes as bolas dos homens são mais previsíveis, já que vão sempre parar ao mesmo sítio.

“Os homens rematam sempre para o mesmo sítio, por isso jogar com mulheres é mais imprevisível”
“As mulheres têm menos força. Os homens têm mais força e rematam sempre corretamente e a bola vai ser sempre parar ao mesmo sítio. É mais fácil de prever. Com as mulheres é muito imprevisível”.

Bebendo a experiência no facto de jogar com um dos ‘Cristianos Ronaldos’ dos matrecos, confessa que “é sempre uma pressão” jogar ao “lado do melhor avançado de Portugal”. No entanto, foi essa experiência que a permitiu evoluir.

“Prefiro jogar com o ‘Cristiano Ronaldo’ do que jogar com jogadores da segunda divisão”

"Tive sorte porque estive sempre rodeado dos melhores jogadores do país e tive essa facilidade para aprender. 'Não faças assim, faz assado'. Prefiro jogar com o ‘Cristiano Ronaldo’ do que jogar com jogadores da segunda divisão, porque assim também vou aprender”.

Tal como em qualquer modalidade, o estudo dos adversários e a componente tática também é essencial para a evolução. Inês Cascais admite que “joga com mais alma, do que com a cabeça” e diz ter pouca paciência “para o jogo mental”.

Sim, sim. A nota artística, como diria Jorge Jesus, só por si, não garante os triunfos nos jogos a doer.

“A parte mental é fundamental. Há jogadores que fazem dribles à frente muito bons, mas depois isso não se traduz em vitórias em jogos”, diz André Mendes. Para se ser bom, um jogador “tem que ter rapidez, defender bem e ter um meio campo fortíssimo. Há jogos que podem demorar mais de uma hora”, alerta.

“Para se ser bom, um jogador “tem que ter rapidez, defender bem e ter um meio campo fortíssimo”

Com dois nonos lugares em campeonatos do mundo, André Mendes recorda com orgulho a proeza de ter batido, em 2010, na altura o nº 10 do ranking mundial, Pavol Kovacic.

“Foi aí que Portugal fez a sua primeira competição internacional. Tivemos que jogar nas cinco mesas, porque se tratava de uma competição ‘multi-table’. O jogo com o Pavol Kovacic está no You Tube. Tive a comitiva aos gritos, o selecionador nacional a chorar”, recorda.

A boa performance de Portugal nos campeonatos do mundo, último dos quais em Hamburgo, na Alemanha, em 2016, onde a seleção portuguesa caiu apenas frente à seleção da casa, não ilustra a realidade portuguesa. Faltam condições para rivalizar com as grandes potências. “Na África do sul, até campos de treinos têm” assinala André Mendes.

Com armas diferentes da Alemanha e França, por exemplo, que treinam nas mesas que são usadas nas competições internacionais, André Mendes reconhece que é “frustrante” e muito difícil, os atletas que jogam em Portugal terem capacidade para ombrear com os atletas de topo.

“Se quiser melhorar o meu nono lugar [no campeonato do mundo] tenho que ter mesas para treinar e não posso ser surpreendido nas alterações nas mesas.Aqui treina-se, treina-se, treina-se, mas depois chega-se lá e os bonecos são diferentes e tudo faz a diferença. É frustrante”, confessa.

"Aqui treina-se, treina-se, treina-se, mas depois chega-se lá e os bonecos são diferentes e tudo faz a diferença"

Mesmo as novas tecnologias não retiraram por completo os jogadores dos cafés e nos últimos anos surgiram jogadores jovens capazes de desafiar os melhores. Prova disso são os títulos de campeões de juniores em 2013 e 2014.

"Nota-se que há mais miúdos a jogar. Parte muito do gosto pelo jogo. Um miúdo que joga agora é o Reinaldo Pereira. É totalmente agarrado à Playstation, mas gosta de jogar matraquilhos”, diz Inês Cascais.

Inês Cascais e André Mendes no primeiro lugar do pódio
Inês Cascais e André Mendes no primeiro lugar do pódio

A evolução da modalidade em Portugal “tem sido gradual”, no entanto, como se trata de uma modalidade amadora, a evolução está sempre dependente dos clubes e das coletividades, lembra Ricardo Vieira. O objetivo acrescenta, passa por “continuar a apostar na formação, tentar captar atletas na parte feminina e preparar a participação no campeonato do mundo”, que se realiza no próximo ano em Múrcia, Espanha.

Para se ser um ás das mesas de matrecos, não bastam alguns trocos no bolso e ser bom no jogo de pulso: Há que jogar com os melhores para evoluir.

“Costumo dizer aos meus amigos: ‘Nós só evoluímos quando perdemos’ . Há jogadores que não são conhecidos e surpreendem. Que treinaram com determinado jogador e viram os vídeos na net. Eu estou no topo há alguns anos e há alguns jogadores que me vêm dizer: - ‘já estava à espera que fizesses isso’.

Mas também há a outra face da moeda. Sem divisões que separem os craques dos amadores, são por vezes as ‘tareias monumentais’ que afastam os iniciantes do jogo.

“Imagine que até gosta de dar uns toques e que ia participar num torneio de futebol e aparecia lá o Cristiano Ronaldo e ganhava-lhe 50-0 e ficava desmotivado. Isso acontece nos matraquilhos”

André Mendes dá um exemplo: “Imagine que até gosta de dar uns toques e que ia participar num torneio de futebol e aparecia lá o Cristiano Ronaldo e ganhava-lhe 50-0 e ficava desmotivado. Isso acontece nos matraquilhos. A explicação é simples: “O contexto é pequeno e acontece jogadores novos jogarem contra mim e isso é desmotivante. Um jogador paga a inscrição num torneio, desloca-se aos campeonatos, apanha três jogadores de topo, perde e não joga mais”, testemunha.
"Nós já tivemos divisões. Primeira divisão, Segunda divisão e Liga Master. Esse é um dos grandes problemas”.

O eterno dilema da falta de apoios

Considerando o estatuto que tem o jogador de 34 anos, pensar-se-ia que André Mendes obtém dividendos financeiros dos seus louros no mundo dos ´matrecos´. Puro engano. As deslocações a torneios internacionais têm saído do próprio bolso do jogador de Corroios. “Tem que haver mais apoio de autarquias. Pedi um apoio e ainda estou à espera”.

No ‘pequeno’ Luxemburgo, a realidade é outra: “A comitiva vai com tudo pago e ainda recebem um extra, mas acredito que a federação possa dar mais condições”.

Num mundo em que impera o amadorismo, só a paixão pela modalidade ainda agarra, alguns, poucos resistentes.

“Gosto mesmo disto. Só cá está ainda quem gosta muito. Sai tudo do nosso bolso. No Campeonato do Mundo de Hamburgo em 2013, tive apoio total da junta de freguesia de Almada. No ano anterior, tive que pagar tudo do meu bolso”, lembra Inês Cascais.

Mas na essência, os matraquilhos ainda são sinónimo de comunhão. Uma espécie de máquina do tempo que nos faz recuar aos tempos, em que só haviam dois canais de televisão e em que se matava o tempo entre dois dedos de conversa no café da esquina.

Sem objetivos a atingir a nível nacional, o prazer de ser reconhecido nas provas ainda é a chama que incendeia o seu vício pelo jogo.

“Já não treino muito. O que me dá prazer é ser reconhecido nas provas e pedirem-me para tirar fotografias. A nível nacional não há nenhum objetivo a atingir, a não ser manter-me no topo, o que é muito difícil”.

É precisamente o “convívio” que ainda motiva Inês Cascais. A presença nos últimos campeonatos do mundo trazem-lhe as melhores recordações: “No campeonato do mundo, deve imaginar, com todas aquelas nacionalidades. Falamos todos. É espetacular. Nem que seja para não jogar. Pela experiência vale a pena”.

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