O bilhete de identidade diz 32 anos mas Gabriel Silva já está há muito tempo no mundo do treino. O jovem técnico está a tentar ajudar Nuno Manta Santos a manter o do Anadia na Liga 3, já depois de ter estado com o treinador aquando da conquista da primeira edição da prova, ao comando do Torreense.

O Anadia é 4.º na Série 1  - Fase de Manutenção - com 14 pontos em seis rondas, mais dois pontos que a Sanjoanense, a primeira equipa em zona de descida.

Na sua carreira, Gabriel Silva conta com uma passagem pelos juniores do SC Braga, pelo Boavista onde foi adjunto de Jorge Simão na Primeira Liga, papel que desempenhou no Desportivo das Aves também na Primeira Liga, além de uma experiência na Arábia Saudita. A nível académico, apresenta uma licenciatura e mestrado na área do treino.

Nesta entrevista ao SAPO Desporto, Gabriel Silva conta porque começou cedo a carreira de treinador, fala das experiências acumuladas, entre elas a passagem pela Arábia Saudita, as suas referências e os seus planos para o futuro. E ainda analisa a presente edição da Primeira Liga.

No SC Braga treinou Trincão, Vitinha e David Carmo

SAPO Desporto:  Tem apenas 32 anos, mas já conta com muita experiência, numa carreira que começou cedo. Como é que se deu a entrada no mundo do treino numa idade tão precoce?

Gabriel Silva: "A entrada no futebol pela via do treino deu-se muito cedo, desde que acabei de jogar na formação, na transição para o primeiro ano de sénior. Comecei logo, paralelamente aos estudos, Licenciatura e Mestrado, a dar treinos na formação. Passei por todos os escalões e depois tive uma experiência no SC Braga. Depois disso, surgiu a possibilidade de integrar a equipa técnica do mister Jorge Simão, no Boavista, como preparador físico. E assim começou a minha carreira profissional..."

Era um jogo numa zona montanhosa, num clima quente, e teve de ser interrompido porque estava uma cobra no meio do campo.

SAPO Desporto: É treinador-adjunto do Nuno Manta Santos no Anadia, na Liga 3, mas já foi preparador físico. Que diferenças há entre estas duas funções?

Gabriel Silva: "O Boavista foi a minha primeira experiência no futebol profissional, na Primeira Liga. Depois desempenhei as mesmas funções na Arábia Saudita, no Al Fayha, e foi no Desportivo das Aves que tive a oportunidade de ser adjunto, que foi sempre o meu objetivo. Seguiu-se o Torreense, na Liga 3 e na Segunda Liga, o Trofense e o Anadia, ambos no terceiro escalão. As principais diferenças é que eu, enquanto preparador físico, focava-me mais nas questões fisiológicas, em preparar os jogadores para o dia do jogo, em apoiar o processo de treino e a otimização do rendimento individual de cada um. Por seu lado, como adjunto, o meu papel é ser o braço direito do treinador, isto é, apoiar em tudo aquilo que é o planeamento, ser uma voz ativa nesse sentido, fazer a ligação com os restantes elementos da equipa técnica, para que as personalidades se conjuguem, e operacionalizar o nosso modelo de jogo".

Gabriel Silva durante um treino
Gabriel Silva durante um treino Gabriel Silva durante um treino

SAPO Desporto: Quando esteve no SC Braga, ainda apanhou o Francisco Trincão. Nessa altura ele já era diferenciado? Era daqueles que se dizia que tinha tudo para singrar na elite?

Gabriel Silva: "O Trincão é um jogador com características diferenciadas e por isso é que é de topo. Já se percebia isso quando estava na equipa B do SC Braga, já marcava a diferença. É um jogador que privilegia atuar naquele espaço entre a linha defensiva e o setor intermédio porque tem a capacidade para receber a bola aí e fazer passes decisivos que poucos jogadores têm".

SAPO Desporto: Acha que ele está no melhor momento de forma da carreira? No recente jogo da Seleção de Portugal finalmente foi aposta e justificou a mesma. Tendo em conta a época no Sporting, vê o extremo como um possível titular na seleção?

Gabriel Silva: "Não me admira que possa ser titular, mas Portugal está recheado de bons jogadores para essas funções, com outro tipo de provas dadas na Seleção. Tudo dependerá das opções do selecionador para potenciar as características de cada jogador".

Primeira experiência de treinador principal no Esmoriz e passagem pela Arábia Saudita

SAPO Desporto: Tem uma passagem pelo estrangeiro, como adjunto do Al-Fayha. Como é que se deu essa sua ida para a Arábia Saudita?

Gabriel Silva: "A experiência na Arábia Saudita foi muito enriquecedora precisamente por esse contexto cultural. Surgiu depois da nossa etapa no Boavista. Foi o primeiro projeto no estrangeiro, no Al Fayha, uma equipa recém-promovida e que estava ainda a criar alicerces para conseguir aquilo que entretanto confirmou, que era vencer uma Taça saudita. Foi uma experiência muito marcante porque tivemos de nos adaptar em termos de metodologia de treino, selecionar de forma criteriosa os jogadores estrangeiros e perceber os hábitos e os costumes dos jogadores para conseguirmos alavancar melhor o seu rendimento".

SAPO Desporto: Tem alguma história de algo invulgar que presenciou por lá?

Gabriel Silva: "Uma história que recordo aconteceu nos oitavos-de-final da Taça. Era um jogo numa zona montanhosa, num clima quente, e teve de ser interrompido porque estava uma cobra no meio do campo. Nunca tinha presenciado... E a naturalidade com que as pessoas de apoio ao jogo encararam a situação foi algo que me deixou estupefacto".

SAPO Desporto: Já teve uma experiência como treinador principal no Esmoriz, no Campeonato de Elite da Associação de Futebol de Aveiro. Como correu a experiência?

Gabriel Silva: "A experiência no Esmoriz foi importante por ter sido tão cedo na minha carreira. Tenho a felicidade de já ter passado por todos os escalões, desde a Distrital até à Primeira Liga, à excepção do Campeonato de Portugal. Mas, por exemplo, a divisão de Elite da AF Aveiro está bastante equiparada a algumas séries do Campeonato de Portugal, pois tem equipas que são de profissionais - não era o caso da minha, naquela altura. Mas essa fase foi importante para mim porque tínhamos uma equipa jovem que conseguimos potenciar. A maior parte dos jogadores ainda hoje está em atividade, o que é muito interessante neste tipo de contextos. Alguns deles que tinham mais potencial estão na Segunda Liga e na Liga 3, outros tiveram experiências no estrangeiro. Na altura, a maior parte deles estavam no o primeiro ano de sénior e essa acabou por ser a melhor época do clube nos últimos 10 ou 15 anos, com escasso investimento, o que me deixa bastante satisfeito. É algo que quero voltar a fazer num patamar acima no futuro".

SAPO Desporto: De certeza que está a preparar-se para também um dia comandar uma equipa como treinador principal. Tendo em conta a quantidade de treinadores no nosso país, equaciona começar primeiro lá fora ou é indiferente onde começar a carreira?

Gabriel Silva: as ideias e as referências

Gabriel Silva: "Para mim não é muito relevante, dada a saturação do mercado, começar cá ou no estrangeiro. Sinto que estou preparado e que seria mais bem aproveitado no contexto nacional porque já tenho alguma experiência, sobretudo nos anos mais recentes de Liga 3. Conheço o contexto desde o início porque também estive inserido desde o arranque da prova - pelo meio tive uma passagem pela Segunda Liga -, conheço os plantéis e os clubes de cor e salteado, algo que eu acho que me dá uma forte vantagem, por exemplo, no recrutamento de jogadores, de perceber o que é necessário para atingir uma fase de subida ou lutar pela manutenção... Penso que é uma mais valia. Contudo, há sempre outros mercados que são aliciantes e um treinador de futebol tem de estar sempre preparado. Tendo um projeto com condições, não coloco de parte a possibilidade de trabalhar no estrangeiro, até porque já o fiz como adjunto".

Acredito que a Premier League consiga retirar o melhor do Gyökeres

SAPO Desporto: Quais são as suas ideias gerais como treinador?

Gabriel Silva: "O mais importante numa equipa minha é o conhecimento dos jogadores, da parte humana, das suas características, do contexto do clube, do seu ADN, e fazer uma boa simbiose entre a ideia de jogo e esses fatores. Se possível, pretendo sempre ter uma equipa que consiga ter a bola no meio-campo adversário, com os olhos na baliza contrária, objetiva, vertical, com muitos movimentos sem bola e que consiga deixar o adversário desconfortável a defender. Além disso, que tenha uma forte reação à perda, de forma a conseguir recuperar a bola o mais depressa possível. Quando o adversário está em posse, procuro que a equipa seja compacta, coesa, perceba os timings e as zonas de pressão para recuperarmos a bola e aproveitarmos o desequilíbrio momentâneo do adversário. Tenciono que seja uma equipa que aproveite os lances de bola parada, que são momentos cada vez mais importantes no futebol moderno, e que saiba ler o jogo".

Gabriel Silva, treinador de futebol
Gabriel Silva, treinador de futebol Gabriel Silva, treinador de futebol

SAPO Desporto: Quem são os técnicos que mais admira na atualidade e porquê?

Gabriel Silva: "Em termos metodológicos, retirei imenso de todos os treinadores com quem trabalhei e tento estar o atento e aproveitar ao máximo o que cada um tem de melhor, que possa servir no meu contexto. Em relação à liderança, identifico-me com o mister Carlo Ancelotti, com quem tive a oportunidade de fazer um estágio, pela forma como consegue, através de relações humanas, retirar o melhor de cada jogador e manter o grupo unido em prol de um objetivo maior. Identifico-me também muito com José Mourinho, especialmente naquela capacidade para entrar na mente dos jogadores. Acho que isso é muito importante, ainda mais no futebol atual, onde a comunicação entre jogadores, treinadores, adeptos e imprensa assume um papel cada vez mais relevante. Em termos de jogo, quando iniciei o meu percurso admirava bastante o André Villas-Boas, que agora é presidente do FC Porto. Era a minha maior referência".

Luta pelo título e o 'panzer' Gyokeres

SAPO Desporto: E como tem acompanhado a luta pelo título esta época? Benfica pode igualar Sporting se vencer o Farense esta 4.a feira. Qual dos dois parece estar na frente na luta pelo título, tendo em conta que o Benfica tem um dérbi e um clássico [com o FC Porto] e o Sporting apenas o dérbi com os leões, sem contar com os outros jogos?

Gabriel Silva: "Parece-me que tanto Benfica como Sporting têm hipóteses, depende dos próximos desafios. Não coloco nenhum à frente do outro".

SAPO Desporto: Surpreende-o a má época do FC Porto? Porquê Anselmi está a ter muitas dificuldades para implementar as suas ideias? Passar de um 4-3-3 ou 4-2-3-1 para o 3-4-3 ou 3-4-2-1 é difícil por causa do esquema ou as ideias de um defesa a três são mais complicadas de implementar?

Gabriel Silva: "No caso do FC Porto, acho que é sempre difícil um treinador entrar a meio da época e querer incutir as suas ideias, pois não escolheu os jogadores nem as suas características. Isto aliado à de um clube como o FC Porto, que tem de obter resultados imediatos, é compreensível o facto de não estar a realizar uma temporada tão positiva. Pode pensar-se se não teria sido melhor haver uma maior adaptabilidade da parte do novo treinador, mas a verdade é que foi contratado por aquilo que é, pelas ideias que tem, pela visão a médio prazo, pela capacidade de potenciar jogadores jovens e por ter outra forma de jogar, na questão dos três centrais. Acho que leva o seu tempo e, pelo que me parece, está a ser dado esse tempo".

SAPO Desporto: Gyokeres vai bem lançado para ser o melhor marcador da I Liga e um dos melhores marcadores europeus. A I Liga já é pequena para o seu talento? Que liga seria a melhor opção, tendo em conta as caraterísticas do sueco?

Gabriel Silva: "Em relação ao Gyökeres, já não há palavras para o descrever. Toda a gente percebe que tem características de avançado de topo, na dimensão física, na potência e na forma como se movimenta. É capaz de decidir jogos, por isso é que é o melhor marcador, tem uma boa capacidade de finalização, tem ainda uma aceleração diferenciada... É um jogador que todas as equipas gostariam de ter. A Liga Inglesa será, provavelmente, aquela que lhe permitirá melhor demonstrar o seu futebol, um pouco à imagem daquilo que é o Haaland, no Manchester City, mas a grande questão é saber se ele conseguirá fazê-lo da mesma forma que faz em Portugal. É verdade que o conseguiu na Liga dos Campeões, mas jogou muito menos vezes contra equipas dessa qualidade. É uma questão de consistência e regularidade, mas acredito que a Premier League consiga retirar o melhor do Gyökeres".

Gabriel Silva: "A equipa do Santa Clara tem vários jogadores que defrontei na Liga 3, pelo Torreense. São jogadores que estão a marcar a diferença, sem querer destacar nenhum. Mas a nossa Liga tem muita qualidade e, por vezes, há jogadores recrutados em contextos inferiores que depois conseguem ter rendimento na Primeira Liga. Acho que isso é mérito dos jogadores, mas também da preparação das equipas técnicas que já existe na Segunda Liga, Liga 3 e até Campeonato de Portugal".

SAPO Desporto: Há algum jogador fora dos Big-4 da I Liga que está a surpreendê-lo esta época?

Gabriel Silva: "O Nuno Moreira, do Casa Pia, por exemplo. Estava a fazer uma época fantástica e acabou por rumar ao Vasco da Gama, do Brasil. A equipa do Santa Clara tem vários jogadores que defrontei na Liga 3, pelo Torreense. São jogadores que estão a marcar a diferença, sem querer destacar nenhum. Mas a nossa Liga tem muita qualidade e, por vezes, há jogadores recrutados em contextos inferiores que depois conseguem ter rendimento na Primeira Liga. Acho que isso é mérito dos jogadores, mas também da preparação das equipas técnicas que já existe na Segunda Liga, Liga 3 e até Campeonato de Portugal".