Fomos até à clínica de Medicina Desportiva que fica no piso térreo do Estádio do Dragão, clube com o qual tem uma relação quase umbilical, tratando da saúde dos seus atletas. A clínica da família Espregueira-Mendes é atualmente comandada pela terceira geração e é nos corredores da Clínica do Dragão que salta à vista um mural, onde a ciência e a religião se confundem.

O médico portuense João de Espregueira Mendes [avô de João Duarte Espregueira Mendes, atual diretor da clínica] contribuiu, com um doente seu, para o “Milagre de São João de Brito”, canonizado pelo Vaticano nos anos 50. Nessa época, João de Espregueira Mendes recebeu na consulta a visita de Joaquim, um menino de nove anos de idade, com tuberculose destrutiva do calcâneo e repercussão grave no seu estado geral de saúde. Após várias tentativas de tratamento, informou a mãe da criança que nada haveria a fazer. A mãe, devota do Beato João de Brito, colocou a sua imagem debaixo do travesseiro de Joaquim, hoje padre. Durante algum tempo, não houve notícias do rapaz até que, meses depois, vê Joaquim entrar no consultório, vivo e de boa saúde. Estupefato, o médico radiografou o menino e verificou que não existia nenhum sinal de tuberculose ou lesão antiga nas radiografias dos dois calcâneos, tendo sido este o milagre que serviu como prova final para que o Vaticano canonizasse João de Brito.

Como ocorrem as lesões?

Atualmente, a maior parte das lesões não está relacionada com choques ou pancadas, mas sim a movimentos de rotação e esforço muscular. Numa análise aos prontuários clínicos de oito clubes profissionais, ortopedistas da Universidade Federal de São Paulo constataram que as lesões por choque entre jogadores (as chamadas contusões) representam apenas 24,1%. Já 39,2% das lesões são musculares, 17,9% de entorses e 13,4% de tendinites.

Além disso, o estudo, publicado pela revista brasileira ‘Super Interessante’, aponta que 72,2% das lesões ocorrem em membros inferiores, com predomínio na coxa (34,5%), no tornozelo (17,6%) e no joelho (11,8%).

“A cada 6 segundos o jogador de futebol faz um movimento inesperado. Articulações e músculos foram feitos para mexer, mas o ser humano ultrapassa os limites de movimentação do seu corpo e aí acontecem as lesões”, diz o ortopedista Moisés Cohen, que coordenou o estudo da Universidade de São Paulo.

Um estudo dos médicos ingleses Richard Hawkins e Colin Fuller, publicado no British Journal of Sports Medicine, mostrou que 71% das lesões que aconteceram durante o Mundial de 1994, nos Estados Unidos da América, aconteceram em lances não assinalados como faltas, o que indica que o maior inimigo do atleta é a própria competividade do futebol moderno.

“Os movimentos não precisam de ser bruscos para existir uma lesão. Muitos rompem o ligamento cruzado (do joelho), por exemplo, por causa de um movimento individual”, conclui Moisés Cohen.

Entenda como acontecem as lesões no futebol

Rosto
Muitos jogadores costumam proteger-se da bola com os braços e, por vezes, uma cotovelada é o suficiente para deslocar o osso que se encontra na parte inferior do nosso rosto. Chama-se osso zigomático, que vai até a mandíbula.

Púbis
O local onde músculo adutor da coxa e púbis se encontram é um dos mais sobrecarregados por parte dos jogadores de futebol. O movimento insistente nesta área provoca uma inflamação no tendão que junta o músculo e o osso. É um tipo de tendinite, muito semelhante a uma distensão na virilha.

Canela
A fratura na tíbia é um dos mais comum e uma lesão em que a fíbula também é afetada, até porque é um osso muito mais fino e que nem sempre é protegido pelas caneleiras.

Tornozelo
Tal como o joelho, é uma parte do corpo que sofre com as rápidas movimentações. Os tornozelos estão mais vulneráveis a golpes também pela irregularidade de um relvado. As lesões mais comuns são as entorses nos ligamentos que unem os pés aos ossos da perna.

Joelho
As rotação são as culpados pelas lesões no joelho e as mais comuns são rompimentos (total ou parcial) do ligamento cruzado anterior, do ligamento colateral-tibial e do menisco. Para perceberam melhor, estas partes funcionam como elásticos que esticam mediante a rotação da perna, quando sobrecarregados podem romper.

Coxa
O músculo é constituído por várias fibras que, na hora do movimento, deslizam umas sobre as outras. Quando o movimento não é harmonioso pode ocorrer uma distensão. Durante um remate, o músculo está contraído para produzir força contra a bola e, de repente, há um ‘esticão’ no momento do embate e aqui os músculos posteriores podem ser as principais vítimas, correndo o risco de contratura ou mesmo romperem.

Rogério Pereira: "Há corpos mais propícios a lesões do que outros"

Ainda na Clínica do Dragão, estivemos à conversa com Rogério Pereira, fisioterapeuta reconhecido na área do desporto, que nos explicou mais como ocorrem as temidas roturas de ligamento cruzado e que há jogadores que têm mais tendência a lesionarem-se do que outros. Um dos autores do capítulo “MRI-Based Laxity Measurement”, desenvolvido por uma equipa de especialistas portugueses em medicina desportiva da Clínica do Dragão e que integra o livro “Return to Play in Footbal - An evidence based Approach”, explicou-nos ainda qual foi a recuperação mais surpreendente que assistiu. Veja o vídeo abaixo.

Segundo Rogério Pereira, responsável da Academia Clínica do Dragão e também docente na Escola Superior de Saúde da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, é necessário “transladar a evidência científica” e promover a prevenção de lesões desportivas para a “realidade dos clubes e das associações desportivas”.

“A medicina desportiva passa pela prevenção de lesões e pelo desenvolvimento das capacidades atléticas. Na verdade, melhorar a qualidade do movimento ajuda a ser melhor desportista e, ao mesmo tempo, ajuda a prevenir. Portanto, é só mesmo falta de conhecimento, falta de cultura e falta de vontade política dentro dos clubes”, afirmou, em declarações à agência Lusa.

O fisioterapeuta mencionou também que as raparigas têm um risco “duas a oito vezes superior” do que os rapazes de sofrer lesões do ligamento cruzado anterior do joelho.

“As pré-adolescentes e adolescentes têm um comportamento diferente dos rapazes, no sentido em que não são capazes de assegurar um padrão de movimento seguro e correto, ao não terem capacidade muscular suficiente para reposicionar o tronco, após um salto. E daí surgem as lesões, porque colocam o joelho numa situação de risco que leva à lesão dos ligamentos”, contou.

Para o professor universitário, “a boa notícia” é que a “intervenção de um fisioterapeuta com prescrição de exercício” pode mudar essa realidade.

“Um programa de prevenção eficaz consistiria, tal como o programa da FIFA 11+, constituído por três partes a 15 exercícios, incluindo o fortalecimento, aprendizagem motora e de pliometria [exercícios de salto com contato muito breve  com o solo]. Estes programas, se forem realizados duas vezes por semana, em cerca de 20 minutos, conseguem relacionar o controlo motor, a força, a mobilidade e ainda por cima, substituir o aquecimento normal. Este programa previne cerca de 40% de todas as lesões no futebol”, sublinhou.

Rogério Pereira acrescentou ainda que é fundamental “os pais indagarem as entidades onde confiam os filhos para as práticas desportivas se tem medidas preventivas”, assim como “as federações das modalidades darem indicações às associações distritais e fazer-se uma formação a nível nacional”.

este artigo da Lusa foi publicado originalmente pelo SAPO Desporto a 09 de novembro.

Radamel Falcão, um renascer difícil das cinzas

Depois de fazer praticamente quatro temporadas de sonho entre as suas passagens pelo FC Porto e Atlético de Madrid, o colombiano Falcao Garcia passou por um tempo difícil quando sofreu uma grave lesão em 2014, já ao serviço do Mónaco, tendo ficando inclusive fora do Mundial2014, no Brasil.

Numa entrevista ao site da UEFA, o avançado chegou a admitir que acreditava ser melhor não continuar com a profissão devido as dificuldades que encontrou logo depois de ter passado pelo processo cirúrgico:

“Passei momentos difíceis depois da minha operação. Pensei em deixar a carreira como jogador de futebol, mas segui adiante e mantive a esperança no futuro.”

Depois das complicações que enfrentou no pós-operatório, o jogador foi emprestado pelo Mónaco aos ingleses do Manchester United (26 jogos e quatro golos) e Chelsea (10 jogos e um golo), tendo regressado ao principado em 2016/17, onde marcou 21 golos e levou a equipa à conquista do título de campeão francês, com o treinador português Leonardo Jardim no comando técnico. Na época seguinte marcou 17 golos e atualmente já leva cinco golos.

Jogadores que foram para a reforma mais cedo devido a lesões

Quando há um problema grave é a ele que recorrem

Há quem lhe chame o ‘Ronaldo dos médicos’ e quando há uma lesão grave é a ele que recorrem no seu consultório no Porto. O médico-cirurgião José Carlos Noronha já tratou de atletas de 34 países, incluindo Cristiano Ronaldo, Pepe, Di Maria e Radamel Falcao.

Vítima há 31 anos de uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho direito, que colocou fim à prática de futebol, em que foi colega de Henrique Calisto no GD Santa Cruz de Alvarenga, em Arouca, José Carlos Noronha dedicou toda a atenção à traumatologia.
Pelas mãos do cirurgião passaram ainda Ashley Cole, Robben, Bruno Morais, César Peixoto, Delibasic, Filipe Teixeira, Hélder Barbosa, Nuno Piloto, Orlando Sá, Pablo Contreras, Hélder Barbosa, Pedro Emanuel, Sérgio Conceição, Rabiola e Robert Huth.

O também diretor da Unidade de Saúde falou de alguns casos que o surpreenderam, tal como o caso da longevidade de Ricardo Carvalho, dizendo mesmo ser um caso de estudo: "Ele pode jogar perfeitamente até aos 40 anos e será um ‘case study’ de longevidade e eficácia. Tem um dos melhores ADN, nunca teve lesões e tem muito cuidado com ele próprio”.

Pelas suas mãos também passou um dos joelhos mais precisos do mundo do futebol, o de Cristiano Ronaldo.

"O Cristiano atravessou, sem dúvida, uma fase dolorosa da tendinopatia que tem, como têm quase todos os atletas. Mas estamos perante um atleta explosivo que faz jogos ao mais alto nível com elevada frequência. É natural que aquele joelho acuse uma sobrecarga. Vamos ter Cristiano até aos 30 e muitos. Com certeza, sem a aceleração que possui agora. Isso ficará, depois, para os treinadores. Como costumam dizer os brasileiros: 'vai continuar a faturar forte”.

Seja milagre ou ciência, na constituição natural de um jogador de futebol, há um elemento que todos falam: sorte.

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