Já foi considerado o "futebolista mais inteligente de Inglaterra". Foi em 2002, quando Clarke Carlisle, antigo defesa central com origem caribenha  (as suas raízes estão na Comunidade da Dominica, no mar das Caraíbas) atuava no QPR (Queen Park Rangers). Retirou-se dos relvados em 2012/2013 no Northampton Town. Aos 39 anos, o antigo jogador aproveitou o Dia Mundial da Saúde Mental para dar uma entrevista à 'CNN' onde revelou os problemas mentais que sofreu durante a carreira. Carlisle tinha uma depressão e até tentou o suicídio em duas ocasiões.

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O jogador começou por isolar-se do mundo. Fechou-se em casa e nunca saía. Deixou de responder aos sms's e aos e-mails. Carlisle sentia que o seu mundo estava a desmoronar-se e que nada podia fazer para evitar esse colapso.

"Como posso sentar-me aqui ao teu lado [n.d.r. jornalista] e contar-te que há quatro anos, atirei-me contra um camião de 10 toneladas a 96 km/h e nem parti um osso? Só posso pensar que tinha alguém a proteger-me, foi um milagre ter sobrevivido", contou o antigo jogador, que representou clubes como Blackpool, Queens Park Rangers, Leeds, Watford, entre outros, nos 17 anos da sua carreira.

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Para assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental, a 'CNN' desafiou o jogador a contar os problemas que passou, numa entrevista que decorreu na sua residência em Preston. A ideia é mostrar aos outros atletas que a alta competição não é tão fácil como se imagina. As lesões, os problemas extra-competição e outros podem levar à depressão e a situações piores.

"Quando estás lesionado e não podes jogar, isso gera uma sensação de inutilidade. Há muitas coisas que podem contribuir para a espiral descendente de um jogador de futebol e é preciso mitigar esse impacto", frisou à 'CNN'.

Em 2017, o antigo jogador foi encontrado a vaguear nas ruas de Liverpool, depois de alguns familiares terem dado pelo seu desaparecimento.

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"Tinha a intenção de acabar com a minha vida e andava pelas ruas a pensar qual seria o melhor sítio para morrer. Pensar na melhor forma de me suicidar foi o que permitiu retardar a decisão e que uns transeuntes interviessem", contou o jogador, que tentou o suicídio no dia de Natal.

Em 2010, Clarke Carlisle foi diagnosticado com depressão. Com ajuda de terapia, foi capaz de identificar onde tudo começou: foi em 2001, durante um período da sua carreira em que sofreu uma grave lesão no joelho.

Na entrevista, revelou que as lesões são os principais causadores das doenças mentais nos futebolistas. E foi isso que foi confirmado em 2015 por um estudo da organizado mundial dos futebolistas, a FIFPro. No estudo, a organização concluiu que um futebolista profissional que sofra três ou mais lesões graves durante a carreira tem quatro vezes mais probabilidade de ter problemas mentais em relação aos que nunca sofreram lesões graves.

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No mesmo estudo, a FIFPro mostrou que 38 por cento dos futebolistas e 35 por cento dos antigos futebolistas mostravam sintomas de depressão ou ansiedade.

Mas não são apenas as lesões os causadores de depressão nos futebolistas. As transferências para outros clubes mas também a retirada dos relvados pode causar problemas que, se não forem diagnosticados e tratados, podem levar os jogadores a desviarem daquilo que é positivo.

"Passas de um estado onde és fundamental [num clube] para outro onde és obsoleto. No futebol isso acontece entre os 33 e os 35 anos", contou Clarke, que criou a 'Clarke Carlisle Foundation', uma fundação para ajudar no diagnóstico da depressão. Um problema que ele ainda não superou.

De acordo com a Associação de Futebolistas Profissionais de Inglaterra (Professional Footballers' Association ou PFA), o órgão que representa os jogadores de futebol em Inglaterra e País de Gales, no final de agosto de 2018, 312 futebolistas tinham solicitado apoio para combater problemas mentais. Em 2017, apenas 403 tinham pedido ajuda, contra 160 de 2016. O que mostra que este é um problema que tem vindo a crescer mas que também há cada vez mais jogadores dispostos a contar o que sofrem.

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A PFA tem uma linha de apoio que funciona 24 horas por dia. Além disso, disponibiliza uma rede de conselheiros que prestam apoio emocional e mental e que está a lançar workshops de saúde mental em todas as 92 equipas de futebol das ligas profissionais.

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