“A Inofavil não faz roupa, a Inofavil produz fios para tecidos”, esta foi a mensagem que Rui Martins, administrador da empresa, fez questão de frisar aquando a minha chegada às instalações da fábrica no concelho de Vila Nova de Famalicão. Isto porque, semanas antes, tinha saído uma notícia (com bastante impacto) sobre uma empresa portuguesa que tem o objetivo de fabricar um verdadeiro fato do Homem-Aranha. Isto deixou-me intrigado e fui até à Inovafil.

Devem estar a perguntar-se: 'O que um fato de Homem-Aranha tem a ver com Desporto?'. E perguntam bem, porque não foi essa a razão que me levou à Inovafil. Descubro que a empresa produz fios - e não roupas - inovadores que têm ajudado na performance dos desportistas.

Mais do que uma empresa, a Inovafil é um projeto

Aqui fala-se de fios, não se produz tecido, apenas matéria prima, isto para não fazer concorrência a um mercado muito competitivo. A empresa abastece-se em todo o mundo, sendo que neste tipo de indústria a matéria mais tradicional é o algodão, mas aqui vai-se mais além. Juntamente com parceiros estratégicos, como a Universidade do Minho e o Citeve - Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal - existe uma vontade de fazer avançar o mercado têxtil.

Muitas das vezes, a funcionalidade, ou grande parte dela, está no fio. Depois, a parte da estrutura - malha ou tecido - complementada com o acabamento, faz a performance desportiva.

Há fios com componentes antifogos e antibacterianos, havendo ainda soluções de produtos anti-stress, que durante a sua utilização cuidam da pele. Assim como fios capazes de introduzir vitamina E no nosso organismo através da libertação. Fios com termorregulação e repelente de mosquitos? Eles já têm isso tudo... Com acordos assinados com clientes e parcerias.

A camisola tem de ser barata para pagar ao Cristiano Ronaldo

Rui Martins falou connosco abertamente sobre a fiação para o têxtil de desporto, desabafando que entrar na produção de equipamentos desportivos para grandes clubes "é mais marketing e mais Cristiano Ronaldo do que têxtil".

Rui Martins, administrador da Inovafil
Rui Martins, administrador da Inovafil créditos: João Agre

Apresente a Inovafil aos nossos leitores de Desporto
A Inofavil surge há três anos, posicionada num setor têxtil com alma nova, em que temos num raio de 20 quilómetros, empresas que trabalham para as melhores marcas a nível mundial, também na área do desporto. Algumas empresas não estão satisfeitas, não se sentem bem servidas ou não se sentem correspondidas a nível de desenvolvimento e preferem regressar à Europa, a uma produção de proximidade, o que permite evitar stocks muito altos. Fazia falta um projeto como o nosso, que providencia fios diferenciados, para moda, desporto ou a nível técnico, e de uma forma muito rápida.

Qual a importância do fio na fabricação de uma camisola para desportistas?
Hoje em dia ninguém corre com uma camisola de algodão, porque absorve apenas 10% da humidade e não escoa, retém essa humidade. O poliéster absorve 2 a 2,5% dessa humidade, não fica pesado e frio, libertando o transpirar, fazendo com que isso aumente o conforto e a performance do jogador. A Inovafil tem uma licença de Drirelease, uma técnica patenteada por uma empresa dos EUA que é potenciada por marcas como Adidas, Nike ou Puma.

Alguma novidade na área do têxtil do desporto que ainda não saibamos?
O mercado que está a explodir na área do desporto é o seamless, que são aquelas malhas muito justas, que não têm costuras e que sai praticamente confeccionada do próprio tear. Com uma ou duas costuras temos a peça pronta. Por outro lado, hoje vamos correr e queremos ir com uma roupa desportiva e não com uma roupa velha. Aquele que vai fazer uma corrida gosta de ir combinado. Há aqui uma associação que a Inovafil aproveitou porque tem um know-how muito grande na moda e transporta-o para o desporto. Atualmente existe um desporto social, um desporto a ser generalizado e as pessoas estão cada vez mais informadas, não estamos a falar só de desporto de alta competição, como FC Porto, Benfica ou Sporting, mas sim de consumidores conhecedores que treinam duas vezes por semana. Eles são conhecedores e estão dispostos a pagar.

Existe alguma grande marca desportiva que já tenha vindo aqui bater à porta?
Ainda hoje [passada terça-feira] tivemos a aproximação de uma maiores marcas de desporto, do gabinete de desenvolvimento da Adidas, uma área muito forte. Eles vieram beber à fonte, às fibras, e saber o que se faz de novo. Estamos a tentar entrar no desporto de funcionalidade e sustentabilidade, tudo o que é consciência ambiental, que está cada vez mais presente, o que nos leva a procurar soluções nessas áreas. Já propusemos a várias marcas fios de poliéster com gestão de humidade, com uma base 100% reciclada. Nós fazemos fios provenientes de garrafas de plástico, que depois são transformados novamente em polímeros, sendo depois extrudidos para dar fibras e conseguir fazer essa gestão de humidade. O poliéster e a poliamida são a base dos materiais do desporto, no futuro serão provenientes de matérias recicladas.

Então é muito provável que a gigante alemã Adidas seja uma futura cliente…
Queremos que a ADIDAS seja nossa cliente indireta, mas que veja na Inofavil uma referência a nível mundial de know-how na área de fios e que as marcas de desporto venham falar connosco para devolver em conjunto e movimentar toda uma cadeia de produção. Acredito que Portugal vai ser uma base nevrálgica do têxtil de desporto, fornecer as marcas com inovação, produtos diferenciados, feitos em Portugal.

Vão investir mais na fiação inovadora para o desporto no futebol?
Estamos muito focados em futebol de alta competição, running e iremos trabalhar em aproximações com as grandes cadeias de desporto e lazer. Muito focados nesta área também porque essa tendência de desporto amador é muito importante porque está a alargar horizontes. Não é uma área tão técnica, mas que oferece evoluções rápidas, de conforto e performance aliada à moda.

Como veem a possibilidade de entrar no mundo dos equipamentos de seleções ou grandes clubes?
É mais limitado e difícil de entrar, é um negocio muito grande, é mais marketing, é mais Cristiano Ronaldo do que têxtil, a camisola tem de ser barata para pagar ao Cristiano Ronaldo, a procura de materiais e soluções agressivas são uma constante. Não é o nosso foco.

Catarina Guise, Responsável de Investigação e Desenvolvimento da Inovafil
Catarina Guise, Responsável de Investigação e Desenvolvimento da Inovafil créditos: João Agre

Este mercado está ávido de coisas novas, nomeadamente na procura de meias desportivas. Hoje em dia, exige-se mais das nossas meias, algo que era inconcebível há muitos anos, porque ninguém valorizava as este tipo e vestuário. Atualmente, procura-se o melhor produto para correr, fazer caminhadas ou jogar futebol.

Catarina Guise, responsável do Departamento de investigação e desenvolvimento da empresa, dá-nos uma orientação sobre as funcionalidades do fio da Inovafil em um minuto.

Por falar em meias, falemos então de calçado. O mercado do calçado desportivo continua em alta e a Inovafil não fecha as portas aos pés dos seus clientes. Atentos às sapatilhas mais recentes, de última geração, em que existe a aplicação de uma meia com sola, Rui Martins vê aqui potencial para expandir o negócio: “São leves, mas estão a precisar de fios”.

A Inovafil representou um investimento inicial de 10 milhões de euros. Actualmente, com perto de 160 funcionários, gera um volume de negócios de 19 milhões de euros, tendo uma produção de 1800 toneladas anuais e exporta "de forma direta" 20% daquilo que produz.

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