Joaquim Evangelista louva a atitude de Marega e afirma que o caso não é novo e que o Sindicato dos Jogadores já teve conhecimento de outras situações semelhantes com outros jogadores.

Em declarações exclusivas ao SAPO Desporto, o presidente do Sindicato dos Jogadores afirma mesmo que o racismo é algo enraizado na sociedade portuguesa e condenou as reações de "paternalismo" à atitude de Marega.

SAPO Desporto (SD) - O que é que o Sindicato dos Jogadores pode fazer para apoiar o Marega nesta situação?

Joaquim Evangelista (JE) - "O Sindicato tem feito tudo para acabar com este fenómeno do racismo, da violência, da xenofobia, da homofobia no desporto. Este ato em particular merece a nossa condenação, é inaceitável que alguém ponha em causa a dignidade de outro ser humano. Estamos a falar de um futebolista, mas também de uma pessoa. Não pode pôr em causa o desporto, nem os nossos valores em sociedade. Porque é isso que estamos a falar, isto diz respeito a todos, vai além do futebol, na verdade.

Porque ao compactuarmos com estas situações estamos a pôr em causa o nosso futuro e isto é muito explorado também por grupos políticos, partidos políticos, muitos populismos, que aproveitam estes temas para dividir a sociedade, e portanto, é de condenar [o caso de Marega] com genuinidade, não é com aquele aproveitamento que muitos fizeram para neste momento estar ao lado do Marega.

Naquilo que depender de nós, o Marega terá o nosso apoio. Ontem foi ele sozinho que reparou e o Sindicato acha que se isto voltar a acontecer se calhar têm de sair todos os jogadores. O Sindicato pede a sensibilidade dos jogadores, para que se isto voltar a acontecer, eventualmente eles têm de parar definitivamente para se refletir a sério sobre o que se está a passar. Não é aceitável deixar um jogador nestas condições, que se viu obrigado a deixar o campo de futebol, onde deveria de estar a desenvolver a sua atividade com salvaguarda da sua integridade e do seu bom nome"

SD - Tem conhecimento de outros jogadores que tenham passado por situações semelhantes em Portugal?

"Já houve alguns casos que nós [Sindicato] identificamos, estivemos ao lado. Esta questão do racismo é uma questão cultural. Aliás, eu acho que no nosso subconsciente ele está cá enraizado e portanto nós temos todos os dias de estar atentos aos sinais para evitar que eles vinguem novamente. O racismo, a xenofobia, a homofobia, os nacionalismos... é preciso estar muito atento, porque é um problema cultural.

Aliás hoje vimos várias reações de paternalismo: “Ah, mas o Marega foi bem tratado aqui em Guimarães”, “mas eu sou amigo dele”; sim, e depois? O que é que uma coisa tem a ver com outra? Houve aqui uma ofensa clara a valores fundamentais. Há também aquela teoria da vitimização, “somos um clube pequeno, só acontece a nós”, não é aceitável. Nós temos de, nestas situações, saber de que lado estamos. A formação tem de ser geral, tem de ser séria, tem de ser permanente”

SD - O  Vitória de Guimarães não foi muito firmes no comentário à situação após o jogo...

JE - "Eu acho que aquilo que aconteceu ontem, foi excecional. Excecional no sentido em que não estávamos preparados para isso, para um jogador de repente parar e ir-se embora. Foi uma coisa nova, toda a gente ficou surpreendida, os próprios jogadores do FC Porto, todos nós… Não vale a pena estamos aqui a julgar os outros, nós se lá estivéssemos não sei como é que reagiríamos.

Dentro do jogo, das hierarquias, houve muita gente que se acabou por comportar de maneira excecional. Agora não tenha dúvidas, que aqueles jogadores e agentes desportivos, condenam o racismo e estas formas de violência. Os jogadores do FC Porto também não saíram, porque de facto ninguém estava preparado para isto, agora se isto voltar a acontecer estou convencido que a resposta será outra.

Não tenha dúvidas que os agentes estão neste momento mais preparados e articulados para este fenómeno. Veja em 2017, o Fernando Gomes foi à Assembleia da República com os agentes desportivos, onde eu estive também, no sentido de mobilizar o poder politico para a alteração da lei, conseguiu-se. Mais recentemente, o presidente da Liga tem manifestado a sua intenção de combater este fenómeno. A Alta Autoridade já está a dar sinais de eficácia relativamente aquilo que são as decisões mais recentes. O próprio Diretor Nacional da polícia, no discurso de tomada de posse, foi muito claro em querer recuperar autoridade do estado e acabar com este sentimento de impunidade, portanto eu acho que estão criadas as condições. As medidas de facto são mais severas, mas eu insisto, a prioridade deve de ser a formação. A educação dos mais jovens, a educação dos treinadores, dos educadores, dos país, para haver um compromisso social total. Isto não é por agora interditarmos estas pessoas dos estádios, e devemos-lo fazer, estes energúmenos não têm lugar no desporto, e vai haver um efeito dissuasor, mas não muda culturalmente. Culturalmente só se houver uma tendência mais profunda, social para lidar com estes fenómenos e isso só se faz através da pedagogia, da educação"

SD - Isto só vem agravar o clima de tensão dos últimos tempos no futebol português, teme pela segurança dos jogadores neste momento?

JE - "Nós temos de estar atentos e ser realistas, há sinais perigosos no que concerne à violência e à integridade dos vários agentes desportivos: estou a falar dos jogadores, dos árbitros em particular, de alguns dirigentes, até os cidadãos em geral que vão ver jogos de futebol às vezes vêm em causa a sua integridade física por um bando de pessoas, de adeptos das claques que acham que podem e mandam no desporto e no país. Isto não é aceitável.

É um clima perigoso, um clima negativo, que afeta a nossa imagem, mas que sobretudo põe em causa o nosso modo de vida. Para mim o mais importante é isto: eu quero um país onde haja regras de conduta e de respeito mutuo, de tolerância, de multiculturalidade… onde todos caibamos, e isso não está a acontecer. O desporto não pode ser um albergue, onde estes grupos possam encontrar o espaço para manifestar atos de violência e outros.

Estou preocupado, mas acredito no estado de direito e acho que o estado tem de recuperar essa autoridade, de exigir um comportamento e defender a liberdade de cada um de nós. A liberdade acaba onde começa a dos outros. Esse principio é fundamental na sociedade e no desporto tem de ser igual.

Quanto ao Marega, um enorme orgulho em alguém, que teve esta coragem. Foi ele que teve esta coragem sozinho. Obriga aqui a uma mudança de paradigma. Ontem [domingo] o Sérgio Conceição dizia que “Somos uma família”, nós também somos uma família, a família dos jogadores está do seu lado, naquilo que depender de nós estamos ao lado de Marega e faremos tudo para mudar e erradicar esta fenómeno do desporto português"

Este domingo, Marega foi substituído ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, entre o FC Porto e o Vitória de Guimarães, depois de ter sido alvo de cânticos e gritos racistas por parte de adeptos da equipa minhota.

 

Vários jogadores do FC Porto e do Vitória de Guimarães tentaram demovê-lo, mas Marega mostrou-se irredutível na decisão de abandonar o jogo, numa altura em que os 'dragões' venciam por 2-1, resultado com que terminou o encontro. O emblema minhoto pode ser punido com um a três jogos a porta fechada, de acordo o Regulamento Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) sobre atos que “promovam, consintam ou tolerem” comportamentos racistas.

O artigo 113.º do regulamento em vigor define as sanções a “comportamentos discriminatórios em função da raça, religião ou ideologia”.

A caso ganhou contornos internacionais e foi notícia lá fora, sendo noticiado em várias televisões mas também em jornais online.

Em Portugal, vários clubes mostraram a sua solidariedade para com Moussa Marega, entre eles o Rio Ave, o Sporting, o SC Braga.

O caso extravassou o futebol e foi comentado por vários quadrantes políticos, quase todos a reprovarem os insultos racistas contra o maliano.

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Dirigentes e deputados de vários partidos, incluindo os líderes do CDS-PP, da Iniciativa Liberal comentaram na redes sociais condenando os insultos dirigidos ao jogador Marega, do FC Porto.

O primeiro-ministro manifestou também a sua "solidariedade" com Marega e o "repúdio total" por atos racistas contra o futebolista do FC Porto, esperando que "as autoridades ajam como lhes compete" para impedir que voltem a acontecer. Antes, o secretário-geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, tinha repudiado os insultos racistas de que foi vítima Marega, salientando que estes atos atentam contra a Constituição e devem ter consequências. Já o Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, João Paulo Rebelo, em entrevista à RTP, elogiou a decisão do maliano em abandonar o terreno de jogo.

O Bloco de Esquerda (BE) quer saber que medidas concretas vai o Governo tomar na sequência dos insultos racistas de que foi alvo o jogador do FC Porto Marega durante um encontro no domingo com o Vitória de Guimarães. Em comunicado, o BE dirige algumas perguntas ao Ministério da Educação e, em concreto, à secretaria de Estado do Desporto e da Juventude, e presta a sua solidariedade para com Moussa Marega e para com “todos os que não desistem de fazer da prática desportiva uma casa da igualdade”.

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O Presidente da República condenou, esta segunda-feira, os insultos racistas de que o jogador do FC Porto Marega foi alvo no domingo, lembrando que a Constituição da República é muito clara na condenação do racismo, xenofobia e discriminação. O Presidente da República sublinhou que só pode “condenar, como sempre, veementemente, todas as manifestações racistas, quaisquer que sejam”.

A associação SOS Racismo defendeu que os responsáveis pelos insultos racistas ao futebolista Moussa Marega devem ser "severamente punidos", considerando que o fenómeno tem que ser "enfrentado antes que se torne incontrolável". A SOS Racismo saúda a decisão de Marega abandonar o relvado, considerando que "era o que todos os presentes deviam ter feito", começando pela equipa de arbitragem.

O PCP pediu  a audição, no parlamento, do ministro da Administração Interna, secretário de Estado do Desporto e Liga de Clubes sobre "medidas a adotar" depois das "manifestações de racismo" contra o futebolista Marega.

Opinião diferente teve André Ventura, deputado e líder do partido CHEGA, que desvalorizou o caso, e disse que as reações eram eram "o síndrome Joacine que começa a invadir as mentalidades".

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A PSP está a tentar identificar os adeptos suspeitos de dirigirem palavras e gestos racistas e xenófobos a Marega, do FC Porto, cometendo assim infrações criminais e contraordenacionais, informou hoje a direção da PSP. A PSP sublinha que o comportamento dos adeptos suspeitos configura um crime previsto e punido no Código Penal com pena de prisão de seis meses a 5 anos. Além da vertente criminal, a PSP acrescenta que tal comportamento de adeptos constitui contraordenação, pois “a prática de atos ou o incitamento à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espetáculos desportivos" pode ser punida com coima entre 1.000 e 10.000 euros.