Marco Ferreira, ex-árbitro, considera que Luís Godinho fez tudo o que devia de ter feito face aos insultos racistas dirigidos a Moussa Marega, no encontro do Vitória de Guimarães frente ao FC Porto.

Em declarações ao SAPO Desporto, considera que o momento foi novo no futebol português e que o árbitro da partida teve o "bom senso" de não mostrar o segundo amarelo a Marega.

"Isto no nosso país é uma novidade, infelizmente aconteceu, mas o árbitro tomou todas as diligências que devia de ter tomado. Para já porque o jogo estava interrompido na altura em que o Marega pediu a substituição, e o sinal é bem claro, que o Marega pede a substituição. O Marega não abandonou o terreno deliberadamente, por sua livre vontade, ele pediu a substituição ao treinador. E a partir do momento em que faz esse sinal, o árbitro só tem de aguardar para que a substituição seja feita. Se eventualmente Marega saísse por livre e espontânea vontade do terreno de jogo podia ser situação para cartão amarelo, ele já tinha um, era o segundo amarelo. Mas o árbitro, e bem, com bom senso, apercebeu-se que a situação tinha a ver com as contestações de cariz, ou não, racista e manteve o jogo parado até que a substituição fosse efetuada. (...) o árbitro o que fez foi ponderar o bom senso, ignorou a atitude do jogador porque entendeu a forma como o jogador estava devido aos factos e geriu bem", afirmou.

Sobre a não interrupção da partida por Luís Godinho, Marco Ferreiro considera que isso poderá estar ligado ao facto do árbitro da partida não se ter apercebido ao que estava a acontecer, sendo que Marega não lhe terá transmitido a situação.

"(...) o próprio jogador não tinha demonstrado à equipa de arbitragem a sua insatisfação face a esses insultos de cariz racista. A partir dai o árbitro está concentrado no jogo e a contestação que vem de fora… tem de se alhear a isso. Se vai ter atenção a tudo o que vem de fora do relvado, a concentração para aquilo que é a função dele também não é a mais apropriada", disse, antes de explicar o porquê de Luís Godinho não ter avançado para o procedimento de três passos da UEFA e FIFA para este tipo de situações.

"Esses três passos seriam se acontecesse algo visível para todo o estádio. E os delegados da liga têm esse poder para avisar o quarto árbitro e o árbitro para interromper o jogo atendendo a essas situações. Não foi o que aconteceu e na altura em que o jogo foi interrompido houve uma certa admiração pelo Marega ter pedido para ser substituído".

O ex-árbitro madeirense revela que a situação apesar de ser nova na I Liga, não é a primeira vez que acontece algo semelhante, recordando episódios nos escalões mais baixos em Portugal.

"O que nós percebíamos é que existem algumas situações que, quando não há sintonia do público com algum atleta, até mesmo da própria equipa, que fazem aqueles sons que já vimos também em alguns países europeus e mesmo em situações de Europeus e Campeonatos do Mundo aconteciam. Era uma situação que não era punida, não estava ainda prevista nos regulamentos e devido a essas situações pontuais que foram acontecendo acabou por ser introduzida esta situação nos regulamentos. Aqui em Portugal, foi a primeira vez que isso aconteceu e com este regulamento já em vigor. Situações dessas acontecem com alguma frequência, principalmente nos escalões mais baixos e nada é feito. Quando acontece no futebol profissional toda a gente vem falar, toda a gente fica escandalizada, mas há outras situações graves que acontecem", afirmou.

Por fim, Marco Ferreira considera que é necessária mão pesada na condenação deste episódio, para que os efeitos se sintam de forma transversal no futebol português, deixando ainda críticas aos órgãos de soberania.

"(...) Tem de ser punido com mão pesada para ser transversal a todo o futebol português, para que também nos escalões inferiores e no futebol não profissional, as situações sejam banidas por completa. Porque não é nada agradável, é uma imagem negativa do nosso país e do nosso futebol, juntando a outras situações. A questão política, a Liga, a federação, infelizmente às vezes passam ao lado dos problemas do futebol, mas nesta situação terá que haver mão pesada e punir os responsáveis por estas atitudes", concluiu.

Este domingo, Marega foi substituído ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, entre o FC Porto e o Vitória de Guimarães, depois de ter sido alvo de cânticos e gritos racistas por parte de adeptos da equipa minhota.

Vários jogadores do FC Porto e do Vitória de Guimarães tentaram demovê-lo, mas Marega mostrou-se irredutível na decisão de abandonar o jogo, numa altura em que os 'dragões' venciam por 2-1, resultado com que terminou o encontro. O emblema minhoto pode ser punido com um a três jogos a porta fechada, de acordo o Regulamento Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) sobre atos que “promovam, consintam ou tolerem” comportamentos racistas.

O artigo 113.º do regulamento em vigor define as sanções a “comportamentos discriminatórios em função da raça, religião ou ideologia”.

A caso ganhou contornos internacionais e foi notícia lá fora, sendo noticiado em várias televisões mas também em jornais online.

Em Portugal, vários clubes mostraram a sua solidariedade para com Moussa Marega, entre eles o Rio Ave, o Sporting, o SC Braga.

O caso extravassou o futebol e foi comentado por vários quadrantes políticos, quase todos a reprovarem os insultos racistas contra o maliano.

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Dirigentes e deputados de vários partidos, incluindo os líderes do CDS-PP, da Iniciativa Liberal comentaram na redes sociais condenando os insultos dirigidos ao jogador Marega, do FC Porto.

O primeiro-ministro manifestou também a sua "solidariedade" com Marega e o "repúdio total" por atos racistas contra o futebolista do FC Porto, esperando que "as autoridades ajam como lhes compete" para impedir que voltem a acontecer. Antes, o secretário-geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, tinha repudiado os insultos racistas de que foi vítima Marega, salientando que estes atos atentam contra a Constituição e devem ter consequências. Já o Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, João Paulo Rebelo, em entrevista à RTP, elogiou a decisão do maliano em abandonar o terreno de jogo.

O Bloco de Esquerda (BE) quer saber que medidas concretas vai o Governo tomar na sequência dos insultos racistas de que foi alvo o jogador do FC Porto Marega durante um encontro no domingo com o Vitória de Guimarães. Em comunicado, o BE dirige algumas perguntas ao Ministério da Educação e, em concreto, à secretaria de Estado do Desporto e da Juventude, e presta a sua solidariedade para com Moussa Marega e para com “todos os que não desistem de fazer da prática desportiva uma casa da igualdade”.

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O Presidente da República condenou, esta segunda-feira, os insultos racistas de que o jogador do FC Porto Marega foi alvo no domingo, lembrando que a Constituição da República é muito clara na condenação do racismo, xenofobia e discriminação. O Presidente da República sublinhou que só pode “condenar, como sempre, veementemente, todas as manifestações racistas, quaisquer que sejam”.

A associação SOS Racismo defendeu que os responsáveis pelos insultos racistas ao futebolista Moussa Marega devem ser "severamente punidos", considerando que o fenómeno tem que ser "enfrentado antes que se torne incontrolável". A SOS Racismo saúda a decisão de Marega abandonar o relvado, considerando que "era o que todos os presentes deviam ter feito", começando pela equipa de arbitragem.

O PCP pediu  a audição, no parlamento, do ministro da Administração Interna, secretário de Estado do Desporto e Liga de Clubes sobre "medidas a adotar" depois das "manifestações de racismo" contra o futebolista Marega.

Opinião diferente teve André Ventura, deputado e líder do partido CHEGA, que desvalorizou o caso, e disse que as reações eram eram "o síndrome Joacine que começa a invadir as mentalidades".

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A PSP está a tentar identificar os adeptos suspeitos de dirigirem palavras e gestos racistas e xenófobos a Marega, do FC Porto, cometendo assim infrações criminais e contraordenacionais, informou hoje a direção da PSP. A PSP sublinha que o comportamento dos adeptos suspeitos configura um crime previsto e punido no Código Penal com pena de prisão de seis meses a 5 anos. Além da vertente criminal, a PSP acrescenta que tal comportamento de adeptos constitui contraordenação, pois “a prática de atos ou o incitamento à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espetáculos desportivos" pode ser punida com coima entre 1.000 e 10.000 euros.

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